Avaliação à acessibilidade de um site da Admnistração Pública

Site das Finanças

“O poder da Web está na sua universalidade. O acesso por todos não olhando à incapacidade é um aspecto essencial” – Tim Berners-Lee, director do Consórcio World Wide Web (W3C)

 Introdução

O Consórcio World Wide Web (W3C) foi criado por Tim Berners-Lee para liderar a Web e retirar dela todo o seu potencial através do desenvolvimento de protocolos comuns que promovam a sua evolução e assegurem a sua interoperabilidade. Em Outubro de 1997, o W3C lança a WAI (Web Accessibility Initiative), tendo como objectivo promover a acessibilidade da Web para pessoas com deficiência.

A WAI persegue a acessibilidade à Web através de cinco áreas principais de trabalho:

– dirigindo-se aos temas de acessibilidade das tecnologias usadas na Web;

– criando directrizes para navegadores, ferramentas de autor e criação de conteúdos;

– desenvolvendo ferramentas de avaliação e validação para a acessibilidade;

– conduzindo acções de educação e disseminação;

– empreendendo investigação e desenvolvimento.

Surgiu, assim, um documento intitulado de “Directrizes para a acessibilidade do conteúdo da Web – 1.0”, que tem como objectivo ser uma referência para princípios de acessibilidade e ideias de concepção. Neste sentido, as suas directrizes explicam como tornar o conteúdo web acessível a pessoas com deficiências. Para além de promover a acessibilidade, a sua observação faz também com que o conteúdo da Web se torne de mais fácil acesso para todos os utilizadores, independentemente do respectivo agente do utilizador e das limitações associadas à respectiva utilização. No fundo, o propósito do W3C ao emitir este documento foi o de chamar a atenção para o especificado e promover a sua adopção generalizada, tendo em vista potenciar a funcionalidade e a universalidade da Web.

O documento contém catorze directrizes sobre concepção da acessibilidade. Cada directriz inclui uma lista de definições de pontos de verificação (no total 65) e o nível de prioridade que lhes estão associados. Os níveis de prioridade foram atribuídos com base no respectivo impacto em termos de acessibilidade:

– Prioridade 1: Pontos que os criadores de conteúdo na Web têm absolutamente que satisfazer. Se não o fizerem um ou mais grupos de utilizadores ficam impossibilitados de aceder à informação contida no documento.

– Prioridade 2: Pontos que os criadores de conteúdos na Web devem satisfazer. Se não o fizerem um ou mais grupos de utilizadores terão dificuldades em aceder a informação contida no documento.

– Prioridade 3: Pontos que os criadores de conteúdos na Web podem satisfazer. Se não o fizerem um ou mais grupos de utilizadores poderão deparar-se com algumas dificuldades em aceder a informações contidas no documento.

Em 1999, após a aprovação da primeira petição online pela Acessibilidade da Internet Portuguesa, surge o “Manual de Boas Práticas para os sítios Web da AP – Administração Pública”. Em 2002, por sua vez, surge o programa ACESSO da Unidade de Missão Inovação e Conhecimento (UMIC), que tem como objectivo actuar no âmbito da inclusão dos Cidadãos com Necessidades Especiais portugueses na Sociedade da Informação. Neste sentido, ficam reunidas as condições para que em consonância com o “Manual de Boas Práticas da AP” e com as “Directrizes para a acessibilidade do conteúdo da Web – 1.0”, a Administração Pública, pelo menos, cumpra os requisitos necessários para tornar os seus sítios web acessíveis a todos os portugueses.

Este artigo surge, assim, de uma tentativa de comprovar se, de facto, têm sido cumpridos todos os princípios para a acessibilidade nos sites da Administração Pública, neste caso no site das Finanças.

Foi, por isso, feita, em primeiro lugar, uma avaliação automática com recurso ao Hera (ferramenta que revê automaticamente a acessibilidade nas páginas web de acordo com as recomendações das “Directrizes para a acessibilidade do conteúdo da Web – 1.0”). De seguida, tendo em conta os resultados que o Hera não conseguiu verificar e os pontos do “Manual de Boas Práticas da AP” com referências relacionadas com a acessibilidade, foi feita uma avaliação manual que completa a avaliação apresentada neste artigo.

Avaliação automática e manual

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Como já foi referido, primeiramente foi feita uma análise automática do site das Finanças com o Hera. Este analisa o site indicado tendo em conta os 65 pontos de verificação das catorze directrizes do documento já referido neste artigo. Neste sentido, os resultados obtidos na análise automática foram os seguintes:

Prioridade

Pontos a verificar (manualmente)

Pontos correctos

Pontos com erros

Pontos não aplicáveis

Prioridade 1

8

3

6

Prioridade 2

16

2

9

2

Prioridade 3

13

1

3

2

Podemos, através da observação da tabela, perceber que o Hera apenas encontrou 3 pontos correctos na sua avaliação, sendo que não encontrou nenhum da prioridade 1. Para além disso, a grande maioria dos pontos tiveram que ser analisados manualmente, o que irá ser retratado mais à frente. Sendo o site das Finanças da Administração Pública, é muito negativo o facto de numa avaliação automática apenas terem sido encontrados, à partida, 3 pontos correctos dos 65 presentes no documento de directrizes do W3C.

Os pontos correctos encontrados foram, assim, os seguintes:

– Ponto 3.5 (Directriz 3): “Há, pelo menos, um cabeçalho principal e não se verificou alteração na ordem de importância dos cabeçalhos”. (Prioridade 2)

– Ponto 5.4 (Directriz 5): “Há 66 tabelas que não usam células de cabeçalho (<th>)”. (Prioridade 2)

– Ponto 10.5 (Directriz 10): “Todos os links adjacentes contém caracteres imprimidos não enlaçados”. (Prioridade 3)

Embora cumpra com estes requisitos e isso seja, como é óbvio, positivo, é importante realçar que foram encontrados 15 pontos com erros. São eles:

– Ponto 1.1 (Directriz 1): Há 45 imagens sem textos alternativos. (Prioridade 1)

– Ponto 3.2 (Directriz 3): Não contém uma declaração do tipo de documento e o código das folhas de estilo contém erros (prioridade 2)

– Ponto 3.3 (Directriz 3): Utilizam-se 6 elementos e 155 atributos HTML para controlar a apresentação. (Prioridade 2)

– Ponto 3.4 (Directriz 3): Utilizam-se unidades absolutas nos atributos dos elementos que compõem as tabelas e unidades absolutas ou tamanhos de fonte definidos em px (pixels) nos valores das folhas de estilo. (Prioridade 2)

– Ponto 4.3 (Directriz 4): Não se indica o idioma principal do documento. (Prioridade 3)

– Ponto 6.3 (Directriz 6): Há 33 links que se activam mediante scripts. (Prioridade 1)

– Ponto 8.1 (Directriz 8): Existem eventos dependentes do dispositivo e não existem eventos redundantes. (Prioridade 1)

– Ponto 9.5 (Directriz 9): Não se proporcionam atalhos do teclado. (Prioridade 3)

– Ponto 10.2 (Directriz 10): Há 3 controlos de formulário que devem levar etiquetas mas não há nenhum elemento “label”. (Prioridade 2)

– Ponto 10.4 (Directriz 10): Há 1 controlo vazio que não inclui caracteres por defeito. (Prioridade 3)

– Ponto 11.1 (Directriz 11): Falta a declaração do tipo de documento. (Prioridade 2)

– Ponto 11.2 (Directriz 11): Há 4 elementos e 165 atributos obsoletos em HTML 4.01. (Prioridade 2)

– Ponto 12.4 (Directriz 12): Não há etiquetas para os controlos. (Prioridade 2)

Podemos, após a apresentação dos resultados, observar que existem alguns erros graves que facilmente seriam evitados. É o caso do uso de elementos e atributos HTML em vez de CSS para a apresentação do documento. Isto vai contra um dos princípios que o W3C tem tentado internacionalizar: a separação da estrutura (em HTML) da apresentação (em CSS). Para além disso, o uso de scripts (principalmente no menu lateral esquerdo do site) dificulta o aceso a utilizadores que não utilizam esta linguagem para aceder a páginas web. Por fim, é de salientar o facto de não ser declarado o tipo de documento e de conter erros em termos do HTML como do CSS, o que vai contra os princípios da uniformização do W3C e mostra o facto de não ter havido um cuidado em desenvolver o site em conformidade com as tecnologia do consórcio. Embora os outros erros apresentados sejam, também, relevantes para a análise, achou-se necessário focar os que mais se destacam tendo em conta os princípios do W3C para a acessibilidade.

Como pode ser visto na tabela apresentada, o Hera não conseguiu verificar 36 pontos dos 65 pontos de verificação. Neste sentido, foram verificados manualmente a maioria desses pontos, nomeadamente os correspondentes à prioridade 1 e 2. Os resultados vão ser, de seguida, apresentados sucintamente, sendo interrelacionados com alguns princípios do “Manuel de Boas Práticas da AP” que se achou pertinente analisar no site em estudo. 

Na avaliação manual, foi possível constatar os erros encontrados na avaliação automática do Hera. Assim, como já tinha sido referido anteriormente, utilizam-se imagens associadas à linguagem Javascript para transmitir a informação no menu lateral esquerdo. Para além disso, a apresentação do site é controlada, maioritariamente, por linguagem HTML em vez de CSS, sendo que os diferentes grupos de informação são estruturados através de tabelas. Outros pontos negativos e que não cumprem os requisitos de acessibilidade do W3C são os seguintes:

– Não se proporciona um link para uma página alternativa acessível caso a página não seja acessível;

– No menu “Notícias”, os três primeiros itens não identificam claramente os links para aceder aos ficheiros;

– São provocados movimentos na página através de scripts, nomeadamente no menu lateral esquerdo;

– Quando são abertas novas janelas o utilizador não é informado.

Porém, não foram encontrados apenas aspectos negativos durante a avaliação. Por isso, é de salientar o facto de o documento poder ser lido quando é interpretado sem CSS; as tabelas continuam a fazer sentido depois de linearizadas; o destino de cada ligação é claramente identificado através de breves contextualizações e é fornecida uma secção de Mapa do Site, Contactos e Ajuda.

Relativamente aos requisitos do “Manual de Boas Práticas da AP”, todos os conteúdos obrigatórios são afixados, à excepção da indicação/descrição do organismo, sendo que é apenas dado um link em “Instituições” para a página web da DGI (Direcção Geral de Impostos), e das FAQ. Porém, na secção “Ajuda” o utilizador pode encontrar todas as duvidas mais frequentes.

Na página principal é fornecida uma secção de “Links úteis” com uma ligação para a homepage do governo e outros sites relevantes. Em todas as páginas adjacentes, é possível voltar à página inicial através do item “Inicio” e com o clique no logótipo “Declarações Electrónicas”. É, também, possível voltar à página em que se esteve anteriormente sem recorrer à barra do browser, sendo disponibilizado o botão “Anterior” e “Seguinte”. Porém, nestas páginas, assim como na principal, não é disponibilizado uma secção de “Sugestões”.

Em relação à apresentação de informação, não é disponibilizado um resumo dos ficheiros PDF em HTML nem é indicado o tamanho de ficheiros para download até o utilizador clicar no próprio link para descarregar o ficheiro.  Por outro lado, é positivo o facto de utilizarem imagens de tamanho inferior a 30Kb, assim como a utilização de fontes “Sans Serif” e do contraste da cor do texto e da cor do fundo ser aceitável.

Na página inicial são disponibilizados links para fornecedor do software no caso do “Internet Explorer 6”, “Netscape 7” e “Opera 7” (navegadores para que a página está optimizada). No entanto, não são disponibilizados outros softwares que sejam necessários, como é o caso do Adobe Reader para possibilitar a leitura dos ficheiros PDF.

Para além dos pontos já focados, é importante o facto de realçar uma possível navegação num ecrã de resolução gráfica 640×480. Por outro lado, é apresentado um único site, o que é muito importante, pois não são feitas distinções entre os cidadãos com necessidades especiais e os cidadãos sem necessidades especiais.

Por fim, é muito importante focar o facto de o site não ter afixado o símbolo de acessibilidade à web. Após todas as iniciativas que têm sido tomadas em Portugal para tornar acessíveis os conteúdos web a todos os cidadãos e sendo este um site da Administração Pública, considero este erro muito grave.

Conclusão

Após a avaliação ao site das Finanças, posso concluir que, embora sejam cumpridos alguns requisitos do documento “Directrizes para a acessibilidade do conteúdo da Web – 1.0” do W3C e do “Manual de Boas Práticas da AP – Administração Pública”, a maioria das recomendações não foram tidas em conta. Tendo em conta a Resolução do Conselho de Ministros nº155/2007, as formas de organização e apresentação dos sítios de Internet do Governo e dos serviços e organismos públicos da administração central devem ser escolhidos de forma a permitirem ou facilitarem o seu acesso pelos cidadãos com necessidades especiais, devendo respeitar o nível de conformidade “A” das directrizes sobre a acessibilidade do conteúdo da web desenvolvidas pelo W3C. Assim, é necessário rever o site das Finanças e estruturá-lo de forma a corrigir e melhorar os pontos incorrectos ou mesmo correctos em relação à acessibilidade. Para além disso, é necessário ter em atenção os pontos que não são cumpridos. As soluções passam, portanto, pelos resultados da avaliação aqui apresentada.

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Posted in EAM. 1 Comment »

One Response to “Avaliação à acessibilidade de um site da Admnistração Pública”

  1. Bruno Giesteira Says:

    Muito bem Filipa,

    Vamos amanhã tentar complementar a análise manual recorrendo a um leitor de ecrã tipo Jaws e outro software específico como o “website viewer”, “screen size tester” entre outros recomendados pelo W3C.

    Bom trabalho!
    Bruno Giesteira


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